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WELISTON FERNANDES | PAPO DE OBRA
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Rachaduras que surgem do nada. Infiltrações que nunca secam. Piso que estufa poucos meses após a entrega das chaves.
A reação quase automática é conhecida:
“Essa obra é uma droga.”
E, em muitos casos, é mesmo.
Mas a pergunta que quase ninguém quer fazer — e que muda completamente o jogo — é outra:
Será que o problema é sempre a construtora?
Ou existe uma falha igualmente grave, porém menos debatida: a negligência na gestão da obra?
Vamos falar disso sem rodeios, com base técnica, visão prática e foco numa dor real de quem mora, gere ou responde por uma edificação.
As patologias construtivas não aparecem por acaso. Elas seguem padrões bem conhecidos na engenharia e na arquitetura:
Fissuras e rachaduras em paredes e lajes
Infiltrações persistentes e humidade crónica
Descolamento ou delaminação de revestimentos
Falhas de impermeabilização
Problemas elétricos, sobrecargas e aquecimento de circuitos
Esses problemas são sintomas, não a causa. Normalmente indicam:
Projetos mal dimensionados ou incompletos
Execução fora dos padrões técnicos
Uso de materiais inadequados ou substituídos sem critério
Falta de manutenção ou de acompanhamento técnico
Dado técnico relevante: estudos sobre patologias em edificações indicam que falhas de impermeabilização e problemas de humidade estão entre as causas mais recorrentes de danos — e também entre as mais dispendiosas de corrigir após a obra concluída.
No Brasil, a NBR 15575 — Norma de Desempenho estabelece critérios mínimos de:
Segurança
Conforto
Estanqueidade
Durabilidade
Vida útil dos sistemas construtivos
Na teoria, a norma deveria orientar projetos, materiais, execução e desempenho ao longo do tempo.
Na prática, a sua aplicação técnica e fiscalização variam bastante.
O que se observa com frequência:
Aplicação parcial ou inadequada da norma
Falta de fiscalização técnica contínua
Ênfase excessiva apenas em prazo e custo
Quando a NBR 15575 não é respeitada, o risco de surgimento precoce de defeitos aumenta significativamente, muitas vezes com maior gravidade e custo de correção.
Existe um pano de fundo estrutural que não pode ser ignorado:
Déficit habitacional elevado
Empreendimentos com margens cada vez mais apertadas
Falta de infraestrutura adequada em muitos projetos
Esse cenário favorece:
Cronogramas irreais
Redução de custos sem avaliação técnica
Substituição de materiais por opções mais baratas
Justificativas recorrentes como:
“Não estava no orçamento” ou “o fornecedor mudou”
O resultado é frequentemente observado na prática: mais risco, mais erros e defeitos ocultos, que só aparecem após a ocupação do imóvel.
Aqui está um ponto essencial: raramente existe um único culpado.
Responde por vícios e defeitos construtivos dentro dos prazos legais
A responsabilização depende de prova técnica, laudos, documentação e análise do caso concreto
Quando o gestor:
Não acompanha a execução
Aceita troca de materiais sem análise técnica
Ignora não conformidades
Autoriza “soluções paliativas” para cumprir prazos
Essa omissão pesa — e muito.
A jurisprudência brasileira já reconheceu, em casos específicos, que a ausência de fiscalização adequada pode contribuir para a caracterização de corresponsabilidade, dependendo das circunstâncias, dos contratos e das provas técnicas apresentadas.
A resposta mais honesta costuma ser: os dois.
Os cenários mais comuns são:
Projeto falho + execução ruim → alta probabilidade de problemas
Projeto correto + execução falha → obra mal executada
Projeto e execução corretos + gestão inexistente → aumenta significativamente a probabilidade de defeitos decorrentes de negligência
Sem esquecer dos vícios ocultos — defeitos que só se manifestam com o tempo e exigem investigação técnica especializada.
Antes de apontar culpados ou iniciar qualquer ação, a perícia técnica é indispensável.
Se o objetivo é corrigir falhas, proteger-se legalmente ou evitar prejuízos maiores, este é o caminho mais seguro:
Fotos e vídeos com data
Registos de conversas, e-mails e mensagens
Orçamentos e relatórios
Laudo de engenheiro ou arquiteto
Sem laudo, a prova técnica fica frágil
O que foi prometido?
O que foi efetivamente entregue?
Quais são os prazos e garantias?
Comunicação escrita e protocolada
Solicite correções com base técnica
Busque apoio técnico e jurídico
A maioria das ações só avança com prova de falha técnica ou omissão de gestão
Por que pequenas não conformidades são ignoradas até se tornarem grandes prejuízos?
Em que momento o prazo deixa de ser meta e vira desculpa para atalhos técnicos?
Será que a obsessão pelo menor preço não alimenta uma indústria inteira de manutenção corretiva e pós-obra?
Ao primeiro sinal de problema, solicite vistoria técnica
Guarde toda a documentação
Não aceite “consertos paliativos” sem registo formal
Exija o cumprimento da NBR 15575 e do contrato
Documente a aceitação dos serviços
Recuse materiais sem ficha técnica
Registe fotograficamente etapas críticas:
Impermeabilização
Sistemas elétricos
Estrutura e fundações
Gestão técnica não é custo. É prevenção de prejuízo.
Muitos problemas em obras não surgem do nada — eles são reflexo direto de falhas na gestão, planejamento e controle.
Para entender melhor como essas falhas se manifestam na prática, veja também:
👉 Assistência Técnica na Construção Civil: por que esse setor é essencial
👉 Empreiteiro abandonou a obra? Veja como evitar prejuízo
👉 Síndico hoje: como a manutenção predial influencia suas responsabilidades
Este artigo tem caráter informativo e educativo. Não substitui laudo técnico, perícia especializada ou assessoria jurídica. Cada caso deve ser analisado individualmente por profissionais habilitados.
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