Será que é mão de obra ruim… ou negligência do gestor?

imagem de três pessoas discutindo sobre uma patologia que aparece em forma de trinca em uma casa que esta no fundo.


Rachaduras que surgem do nada. Infiltrações que nunca secam. Piso que estufa poucos meses após a entrega das chaves.

A reação quase automática é conhecida:

“Essa obra é uma droga.”

E, em muitos casos, é mesmo.
Mas a pergunta que quase ninguém quer fazer — e que muda completamente o jogo — é outra:

Será que o problema é sempre a construtora?
Ou existe uma falha igualmente grave, porém menos debatida: a negligência na gestão da obra?

Vamos falar disso sem rodeios, com base técnica, visão prática e foco numa dor real de quem mora, gere ou responde por uma edificação.


Os defeitos mais comuns em obras residenciais — e o que eles revelam

As patologias construtivas não aparecem por acaso. Elas seguem padrões bem conhecidos na engenharia e na arquitetura:

  • Fissuras e rachaduras em paredes e lajes

  • Infiltrações persistentes e humidade crónica

  • Descolamento ou delaminação de revestimentos

  • Falhas de impermeabilização

  • Problemas elétricos, sobrecargas e aquecimento de circuitos

Esses problemas são sintomas, não a causa. Normalmente indicam:

  • Projetos mal dimensionados ou incompletos

  • Execução fora dos padrões técnicos

  • Uso de materiais inadequados ou substituídos sem critério

  • Falta de manutenção ou de acompanhamento técnico

Dado técnico relevante: estudos sobre patologias em edificações indicam que falhas de impermeabilização e problemas de humidade estão entre as causas mais recorrentes de danos — e também entre as mais dispendiosas de corrigir após a obra concluída.


Existe norma técnica. Então por que o problema continua?

No Brasil, a NBR 15575 — Norma de Desempenho estabelece critérios mínimos de:

  • Segurança

  • Conforto

  • Estanqueidade

  • Durabilidade

  • Vida útil dos sistemas construtivos

Na teoria, a norma deveria orientar projetos, materiais, execução e desempenho ao longo do tempo.
Na prática, a sua aplicação técnica e fiscalização variam bastante.

O que se observa com frequência:

  • Aplicação parcial ou inadequada da norma

  • Falta de fiscalização técnica contínua

  • Ênfase excessiva apenas em prazo e custo

Quando a NBR 15575 não é respeitada, o risco de surgimento precoce de defeitos aumenta significativamente, muitas vezes com maior gravidade e custo de correção.


Pressão por prazo e custo: o contexto que agrava tudo

Existe um pano de fundo estrutural que não pode ser ignorado:

  • Déficit habitacional elevado

  • Empreendimentos com margens cada vez mais apertadas

  • Falta de infraestrutura adequada em muitos projetos

Esse cenário favorece:

  • Cronogramas irreais

  • Redução de custos sem avaliação técnica

  • Substituição de materiais por opções mais baratas

  • Justificativas recorrentes como:
    “Não estava no orçamento” ou “o fornecedor mudou”

O resultado é frequentemente observado na prática: mais risco, mais erros e defeitos ocultos, que só aparecem após a ocupação do imóvel.


Afinal, quem é o responsável — técnica e legalmente?

Aqui está um ponto essencial: raramente existe um único culpado.

Responsabilidade da construtora

  • Responde por vícios e defeitos construtivos dentro dos prazos legais

  • A responsabilização depende de prova técnica, laudos, documentação e análise do caso concreto

Responsabilidade do gestor da obra (síndico, dono ou fiscal)

Quando o gestor:

  • Não acompanha a execução

  • Aceita troca de materiais sem análise técnica

  • Ignora não conformidades

  • Autoriza “soluções paliativas” para cumprir prazos

Essa omissão pesa — e muito.

 A jurisprudência brasileira já reconheceu, em casos específicos, que a ausência de fiscalização adequada pode contribuir para a caracterização de corresponsabilidade, dependendo das circunstâncias, dos contratos e das provas técnicas apresentadas.


Obra ruim ou gestão negligente?

A resposta mais honesta costuma ser: os dois.

Os cenários mais comuns são:

 Projeto falho + execução ruim → alta probabilidade de problemas
 Projeto correto + execução falha → obra mal executada
 Projeto e execução corretos + gestão inexistente → aumenta significativamente a probabilidade de defeitos decorrentes de negligência

Sem esquecer dos vícios ocultos — defeitos que só se manifestam com o tempo e exigem investigação técnica especializada.

Antes de apontar culpados ou iniciar qualquer ação, a perícia técnica é indispensável.


A solução prática: como agir de forma técnica e estratégica

Se o objetivo é corrigir falhas, proteger-se legalmente ou evitar prejuízos maiores, este é o caminho mais seguro:

1. Documente tudo

  • Fotos e vídeos com data

  • Registos de conversas, e-mails e mensagens

  • Orçamentos e relatórios

2. Solicite uma vistoria técnica independente

  • Laudo de engenheiro ou arquiteto

  • Sem laudo, a prova técnica fica frágil

3. Revise contratos e memoriais descritivos

  • O que foi prometido?

  • O que foi efetivamente entregue?

  • Quais são os prazos e garantias?

4. Notifique formalmente

  • Comunicação escrita e protocolada

  • Solicite correções com base técnica

5. Em caso de resistência

  • Busque apoio técnico e jurídico

  • A maioria das ações só avança com prova de falha técnica ou omissão de gestão


Provocações para quem vive ou gere uma obra

  • Por que pequenas não conformidades são ignoradas até se tornarem grandes prejuízos?

  • Em que momento o prazo deixa de ser meta e vira desculpa para atalhos técnicos?

  • Será que a obsessão pelo menor preço não alimenta uma indústria inteira de manutenção corretiva e pós-obra?


Conclusão prática

Para moradores

  • Ao primeiro sinal de problema, solicite vistoria técnica

  • Guarde toda a documentação

  • Não aceite “consertos paliativos” sem registo formal

Para síndicos e gestores

  • Exija o cumprimento da NBR 15575 e do contrato

  • Documente a aceitação dos serviços

  • Recuse materiais sem ficha técnica

  • Registe fotograficamente etapas críticas:

    • Impermeabilização

    • Sistemas elétricos

    • Estrutura e fundações

Gestão técnica não é custo. É prevenção de prejuízo.


Muitos problemas em obras não surgem do nada — eles são reflexo direto de falhas na gestão, planejamento e controle.

Para entender melhor como essas falhas se manifestam na prática, veja também:

👉 Assistência Técnica na Construção Civil: por que esse setor é essencial
👉 Empreiteiro abandonou a obra? Veja como evitar prejuízo
👉 Síndico hoje: como a manutenção predial influencia suas responsabilidades

Este artigo tem caráter informativo e educativo. Não substitui laudo técnico, perícia especializada ou assessoria jurídica. Cada caso deve ser analisado individualmente por profissionais habilitados.

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